domingo, 4 de agosto de 2013

Pois é...

Houve um tempo em que as madrugadas eram para conversar com você. Compartilhávamos grandes segredos e banalidades cotidianas. As músicas que eu ouvia eram as suas favoritas, meus passatempos favoritos eram os que você escolhia. A cor do meu batom, a roupa que vestia, o modo como penteava meus cabelos, era tudo minunciosamente escolhido pensando apenas no quanto você iria gostar.
Meu perfume favorita era o que você havia elogiado. Meu dia só era completo se eu te visse ou ouvisse a sua voz.
O cheiro do seu perfume, o som da sua risada e dos seus passos ao entrar na minha casa, ainda estão impregnados na minha memória. Há muito tempo não vejo mais o brilho dos seus olhos, não ouço a sua voz, não sinto o seu abraço. Hoje meus sorrisos não são mais tão luminosos quanto os que eu vejo nas fotos tiradas ao seu lado, meu humor não é mais tão leve e minha voz que antes era aveludada, hoje não passa de ácida profusão de palavras. Não me reconheço mais, não sei mais de quem é esse rosto. Sei que o melhor de mim se foi, restando um coração esmagado pela decepção de te ver partir.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Roda Gigante

Antes, aquela garota tinha medo de dizer adeus, odiava pensar em partidas e separações. Temia que aqueles laços tão docemente tecidos, fossem destruídos como a frágil flor que sucumbe após impetuosas tempestades.
seu coração tinha a fragilidade do cristal, absolutamente quebrável . Sonhadora, de temperamento romântico, dócil. O tipo de garota que facilmente seria chamada de boba. Seu coração receptivo fora repetidamente enganado, iludido e abandonado.
Sonhava em um dia encontrar aquele que tomaria posse de seu coração, com quem teria laços inquebráveis, sonhava com um amor ideal e eterno.
Após repetidos desenganos, começou a sentir mais dura, talvez até mais fria. Não reconhecia aqueles olhos determinados quando os encarava diante do espelho. Se entristecia, ficava confusa, mas que tolice! Acaso a lagarta quando está em plena metamorfose, meio lagarta, meio borboleta tem a capacidade de reconhecer-se quando olha pra si mesma?
Somos muitos seres em um único corpo, mudamos a cada respirar, tememos o desconhecido como por um instinto de autodefesa.
A vida sempre será assim: surpresas, desenganos, alegrias, tristezas, luto e celebração. Somos em todo o tempo lançados ao abismo e ao céu nessa impetuosa roda gigante a que estamos presos por toda a vida!

sábado, 16 de março de 2013

O vício do cálculo

Deitada, olhando para o teto, ela tentava entender o que sentia. Pode parecer loucura, mas evocava a memória de alguém que a fizera sofrer muito, apenas para evitar que esse amor que ela sentia nascer, florescesse. Desejava ardentemente que o coração fosse simples, como receita de bolo: depois da decepção, vem o esquecimento e tempos depois um novo amor. 
Por mais tempo que ela gastasse em raciocinar, medir e calcular as probabilidades, não conseguia livrar-se do emaranhado de pensamentos e da confusão de sentimentos conflitantes. Agora, essa nova sensação, parecia ser a cura para aquela dor insistente e tão antiga. Cheia de luz, encantamento, palavras agradáveis, sorrisos bobos, frio na barriga. Todas as sensações que ela já conhecia, tudo o que ela havia sentido por aquele outro, que lhe virou as costas, deixando-a no mais cruel abandono.
Gastava horas, olhando para o nada, como se a imensidão fosse capaz de lhe dar as respostas que procurava. 
Não seria fácil esquecer o abandono: o engano, as noites em claro que ela passava na frete do computador, esperando que ele desse um sinal. Como se esquecer do tempo gasto grudada ao celular, esperando em vão por uma mensagem de texto, uma ligação ou qualquer indício que a convencesse de que não havia sido esquecida?
Quando não suportava mais a angústia de toda essa bagunça que a amargurava,uma lágrima escorreu de seus olhos, uma gota apenas, suficiente para lhe arrancar um enorme peso do peito. Era apenas uma gota, uma amostra insignificante de todo peso que estava sobre seu peito, mas ainda assim, foi capaz de convencê-la que o melhor era desistir de amar assim, como quem faz cotações mercadológicas. Foi assim, que ela conseguiu abandonar o vício de desejar ter controle absoluto de seus passos, de planejar meticulosamente a vida. 
Soltou os cabelos, descalçou os pés e escolheu se deixar levar pela vida. Sem se expor a sofrimentos desnecessários, sem entregar-se a ilusão de um sentimento inventado. 

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Admirável, forte e brilhante!


Cecília Meireles
Uma das minhas escritoras favoritas é a Cecília Meireles. Suas obras são repassadas de sentimentos fortes e em muitos casos de uma solidão amarga e desoladora. Admiro-a particularmente por sua história de vida que foi repleta de tragédias e tristezas. Deixo aqui alguns trechos de um depoimento emocionante e repassado do mais profundo lirismo dado pela própria Cecília Meireles para a Revista Manchete em 05 de Outubro de 1953:

"Nasci aqui mesmo no Rio de Janeiro, três meses depois da morte de meu pai, e perdi minha mãe antes dos três anos. Essas e outras mortes ocorridas na família acarretaram muitos contratempos materiais, mas, ao mesmo tempo, me deram, desde pequenina, uma tal intimidade com a Morte que docemente aprendi essas relações entre o Efêmero e o Eterno.                                                                                                                         

(...)

Em toda a vida, nunca me esforcei por ganhar nem me espantei por perder. A noção ou o sentimento da transitoriedade de tudo é o fundamento mesmo da minha personalidade.                                                                                                                 

(...)

Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas, e foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão. Essa foi sempre a área de minha vida. Área mágica, onde os caleidoscópios inventaram fabulosos mundos geométricos, onde os relógios revelaram o segredo do seu mecanismo, e as bonecas o jogo do seu olhar. Mais tarde foi nessa área que os livros se abriram, e deixaram sair suas realidades e seus sonhos, em combinação tão harmoniosa que até hoje não compreendo como se possa estabelecer uma separação entre esses dois tempos de vida, unidos como os fios de um pano"                   

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Foi você quem escolheu!

Penso em você mais do que deveria. Sua lembrança é como uma doença crônica e degenerativa, daquelas que silenciosamente corroem, minam as forças, apodrecem as carnes.
Meus ossos estão esfarelados por não suportarem o peso de suas promessas que jamais foram cumpridas. Meus ouvidos pútridos pelo som da sua voz que ainda ressoa teimosamente dentro deles. Meus pulmões arruinados pelo torpor do seu cheiro, não conseguem me manter respirando. Sinto-me asfixiada na mudez das palavras que não disse.
Me encontro a beira da destruição e nesse abismo profundo só consigo ter um único desejo: que você saiba que a culpa é sua, que com o peso do remorso você se consuma como me consumi por não mais suportar o peso desse amor.
Você poderia ter sido meu remédio, mas escolheu ser minha ruína. 

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Fui Clara?!

Ela não podia dizer que já sofrera na vida, pois tinha a mania de achar que seus problemas eram menores que das outras pessoas. Quem a via de longe, a julgava uma mulher forte, inabalável e decidida.Porém, quando Clara se olhava no espelho, sentia-se frágil como a flor desfeita pelo vento.
Suas dores eram intensas, latejavam e sangravam inflamadas por passarem todo o tempo abafadas.
Não chorava, não reclamava e sorria o tempo todo, mas quem a observasse mais de perto perceberia que havia uma amargura profunda, fazendo daquele sorriso uma expressão grotesca e desesperadora.
Um dia, Clara cansou de sorrir sem vontade, de viver imobilizada em sua máscara de alegria e força. Passou a viver de ilusões.
Sonhava sempre com um belo homem. O mesmo que partiu num dia chuvoso sem ao menos despedir-se há mais de um ano atrás. Suspirava como uma adolescente e perguntava a si mesma se não poderia ter sido diferente de algum modo. Imaginava-se cedendo as vontades dele, deixando os amigos para ser só dele,  lendo o que ele queria, ouvindo as músicas favoritas dele e vivendo a vida dele, anulando-se por ele.
Passou a viver num universo paralelo, vivia de seus sonhos e a realidade não era nada além de um ruído impertinente que vez ou outra a fazia despertar do permanente torpor.
Trancafiou-se de tal modo em seus sonhos que não percebeu quando o seu adorado, arrependido de ter partido, veio puxar-lhe pela mão para arrancá-la de seu mundo particular e transportá-la para o turbilhão da realidade. 
Consumiu seus dias mergulhada em sonhos, sem mover um único músculo para realizá-los. Terminou triste, só, acorrentada a uma vida que nunca existiu e louca!

domingo, 21 de outubro de 2012

A história dos olhos

A história que conto é como tantas outras que já foram contadas. É a história que se repete todos os dias, como tantas outras. Cada uma com seu drama particular.
Temos uma garota normal, um pouco mais calada que as outras garotas que a cercavam. Não mentirei dizendo que ela era linda, nem serei injusta chamando-a de feia. Limito-me a dizer que ela tinha preguiça de ser comum, preferia fugir de tudo que a tornasse igual a todas as outras garotas, mas era exatamente isso que a tornava enfadonhamente comum.
É claro, temos também um garoto, ou a trama não estaria completa. As boas histórias de amor são feitas para dois, mas não necessariamente vivida por ambos na mesma intensidade, que é o que veremos aqui.
Ele era perfeito aos olhos dela, com aquele sorriso cintilante, o olhar doce e misterioso que passava por ela, mas não a via. Um lindo par de olhos, que nunca se lembrou de olhar nos indecisos olhos dela. Ela não ligava para isso, ela nunca tinha se dado conta disso. A sua ignorância era a sua salvação.Porém num dia que corria igual a todos os outros, ela acidentalmente consultou aqueles olhos pretos - talvez não tivesse dito ainda, mas eram olhos pretos. Profundos, intensos e um tanto quanto sombrios.- percebeu que eles não davam a menor atenção a seus olhos azuis. Isso a fez lamentar, pois imaginou como seria lindo o contraste que o encontro desses dois pares de olhos provocariam.
Depois disso, a obsessão dela passou a ser encantar o confiante rapaz de olhos pretos, desejava que o cintilar daquele sorriso fosse todo para ela, que a intensidade dos pensamentos afogados naquela escuridão desconcertante dos olhos pretos do garoto, fossem a faceirice e a beleza que a garota pensava ter.
Não se pode obrigar dois pares de olhos a se encontrarem, não se pode obrigá-los a brilharem juntos. Não por força, como ela queria, não por querer satisfazer o egoismo de um olhar presunçoso. Os olhos pretos, encontraram outros, verdes como uma folha fresca reluzindo ao sol. Prendeu-se neles.
Nos olhos azuis, além da inquietude e frustração de quem procura o que jamais encontrará, restaram torrentes infindáveis de lágrimas salgadas como as águas do mar, esse mesmo, o mar que é tão azul quanto seus olhos e tão profundo quanto os olhos dele. Ironicamente, as lágrimas que lamentavam o desencontro, encerravam em si a total compatibilidade das características desse dois pares de olhos que talvez por teimosia, jamais iriam se encontrar.