sábado, 16 de março de 2013

O vício do cálculo

Deitada, olhando para o teto, ela tentava entender o que sentia. Pode parecer loucura, mas evocava a memória de alguém que a fizera sofrer muito, apenas para evitar que esse amor que ela sentia nascer, florescesse. Desejava ardentemente que o coração fosse simples, como receita de bolo: depois da decepção, vem o esquecimento e tempos depois um novo amor. 
Por mais tempo que ela gastasse em raciocinar, medir e calcular as probabilidades, não conseguia livrar-se do emaranhado de pensamentos e da confusão de sentimentos conflitantes. Agora, essa nova sensação, parecia ser a cura para aquela dor insistente e tão antiga. Cheia de luz, encantamento, palavras agradáveis, sorrisos bobos, frio na barriga. Todas as sensações que ela já conhecia, tudo o que ela havia sentido por aquele outro, que lhe virou as costas, deixando-a no mais cruel abandono.
Gastava horas, olhando para o nada, como se a imensidão fosse capaz de lhe dar as respostas que procurava. 
Não seria fácil esquecer o abandono: o engano, as noites em claro que ela passava na frete do computador, esperando que ele desse um sinal. Como se esquecer do tempo gasto grudada ao celular, esperando em vão por uma mensagem de texto, uma ligação ou qualquer indício que a convencesse de que não havia sido esquecida?
Quando não suportava mais a angústia de toda essa bagunça que a amargurava,uma lágrima escorreu de seus olhos, uma gota apenas, suficiente para lhe arrancar um enorme peso do peito. Era apenas uma gota, uma amostra insignificante de todo peso que estava sobre seu peito, mas ainda assim, foi capaz de convencê-la que o melhor era desistir de amar assim, como quem faz cotações mercadológicas. Foi assim, que ela conseguiu abandonar o vício de desejar ter controle absoluto de seus passos, de planejar meticulosamente a vida. 
Soltou os cabelos, descalçou os pés e escolheu se deixar levar pela vida. Sem se expor a sofrimentos desnecessários, sem entregar-se a ilusão de um sentimento inventado.